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O
Estado Pós-Moderno e a Cobrança de Impostos
Se
George Orwell estivesse vivo teria tido a satisfação de ver seu Big
Brother de controle da informação (do livro 1984) instalado e
operando eficientemente com imensos corpos tecnocráticos
utilizando-se de uma tecnologia específica para controlar informações
sobre os cidadãos e lhes dominar no âmbito de sua produção econômica.
George
Orwell, autor do livro “1984” que descreve um Estado que
controla todos os atos de seus cidadãos (http://www.george-orwell.org/)
.
Estas experiências em torno do controle da
informação têm episódios emblemáticos como a Stasi,
polícia política nos anos 70 na Alemanha Oriental, que dispunha de
prédios inteiros para guardar informações, além uma rede de
funcionários e informantes com registros organizados sobre todos os
detalhes dos seus cidadãos que eram guardados em muitos corredores
de arquivos de pastas. Até mesmo o cheiro das pessoas era
registrado; coletado em uma flanela e preservado em um vidro de
conservas. Estas experiências (muitas inspiradas no Estado Nazista)
na tentativa de um Estado em controlar e dominar seus cidadãos são
pré-revolução da informática, anteriores ao PC e a Internet e a
economia globalizada, mas foram um prenúncio do que aconteceria nas
décadas seguintes de forma muito mais sutil e eficiente.
Vidros
de conserva onde a polícia secreta da antiga Alemanha Oriental
guardava o cheiro de seus cidadãos (http://www.stasimuseum.de/en/enindex.htm)
.
Quase três décadas depois, em 2008 o cenário
de controle de informações sobre a vida do cidadão evoluiu
rapidamente, avançando sobre as informações que retratam a
atividade econômica e que são mais interessantes para os Estados
no contexto das sociedades de massa onde há consumo de bens duráveis
e não duráveis de muitos tipos.
O Estado não produz riquezas, os custos de
sua operação são inteiramente cobertos pelo dinheiro que os
contribuintes concedem para o Estado. Prédios e mais prédios em várias
cidades do mundo abrigam as muitas administrações de receita, do
tesouro, dos bancos centrais e corpos burocráticos estratificados e
sofisticados, com redes de informação extremamente qualificadas e
que se especializaram em retirar da sociedade os recursos para
custear sua própria existência. Estas máquinas políticas e
burocráticas, mesmo aquelas alinhadas às práticas eleitorais que
validam e referendam o poder do Estado, se sofisticaram
tecnologicamente e estrategicamente sobre as informações a partir
das quais as se pode cobrar impostos. Informações como possuir
propriedades, produzir bens e serviços, investir, possuir reservas
de moeda em espécie ou outros tipos de reserva de valor oferecidas
no mercado. Estas informações são muito preciosas para quase
todos os governos, pois sobre elas se cobram impostos, taxas,
contribuições, anuidades, mensalidades.
O
tipo de informação predileta para os tecnocratas e corpos burocráticos
que administram o Estado é a informação econômica, tais como: o
quanto cada cidadão ganha, qual sua renda, de onde vem esta renda,
quais seus bens, posses, reservas econômicas, de que forma este
fluxo acontece, onde cada cidadão gasta seu dinheiro, seus hábitos
de consumo, quando compra, o que compra, como compra. Todas estas
informações geram possibilidade de se tributar o cidadão
contribuinte e assim angariar mais recursos para o Estado.
O impacto da informática sobre as
tecnocracias que arrecadam impostos, e, portanto burocracias de alto
interesse para o Estado e centrais para a viabilidade dos Estados,
aumentaram significativamente a capacidade de controlar e
compartilhar bancos de dados muito completos sobre a vida econômica
de quase todas as pessoas que desempenham alguma atividade econômica.
Com esse aparato tecnológico a eficiência na cobrança de
impostos aumentou muito. O que no passado era uma atividade de difícil
controle, hoje dispõe de informações vindas de terminais
computadorizados que em tempo real repassam estas informações
coletadas em cada esquina de praticamente todas as cidades dos países
economicamente mais avançados para sistemas de arrecadação de
impostos dos governos destes países.
Já
há muitas décadas, em alguns casos séculos, as prefeituras de
muitas municipalidades no mundo todo registram de forma detalhada
informações sobre as residências dos cidadãos e dos locais
ocupados pelas empresas; o tamanho da casa de cada residente, os
materiais do qual e feita, a metragem do terreno ocupado, os dados
sobre o consumo de energia elétrica, de serviços telefônicos, de
água e sistemas de esgoto, de gás e ou outros tipos de serviço
oferecidos em áreas urbanizadas, suburbanas e rurais. As
prefeituras e governos cobram impostos a partir destas informações,
na maioria sob a justificativa de que teriam tido gastos na
implementação destas infra-estruturas básicas de saneamento,
energia, telefonia entre outras.
Contraditoriamente, em muitos casos em maior
ou menor grau, os hospitais municipais destas cidades não têm a
mesma eficiência em guardar, organizar, e lembrar seus cidadãos
permanentemente da existência de informações sobre sua saúde, os
remédios que tomou ou toma, os tratamentos a que já se submeteu,
seu tipo sanguíneo.
É muito mais fácil em uma pesquisa rápida
na internet descobrir seu Cadastro de Pessoa Física, ou informações
sobre seu endereço para correspondências do que seu tipo sanguíneo.
A preocupação e preparação dos corpos burocráticos em lidar com
as informações sobre saúde é muito menor do que em relação aos
seus dados econômicos. Estes corpos burocráticos têm os maiores
cadastros e banco de dados sobre cada pessoa e poderiam ter sistemas
para coletar e disponibilizar outras informações úteis ou
importantes para o bem estar de cada pessoa.
Mas, pelo simples fato de que os Estados não cobram impostos
sobre as doenças ou problemas de saúde, estas informações são
muito menos organizadas, disponibilizadas e registradas pelos
Estados. Mesmo em Estados com razoável eficiência do Estado de
Direito e, onde existe o compromisso legal deste Estado em zelar
pela saúde de seus cidadãos, normalmente isto é feito de forma
bem menos eficiente do que a cobrança de imposto, isto no contexto
da maioria dos Estados com economias, mercados financeiros, sistemas
legais, de polícia e militares em níveis mais avançados de
organização.
As
Democracias de Massas
No século 20 as populações aumentaram
grandemente, o número de cidades aumentou e muitas das democracias
de hoje têm milhões de eleitores e seus Estados registram informações
em seus muitos bancos de dados a respeito destes eleitores e se
comunicam com seus cidadãos através de veículos e canais de
comunicação de massa, como a TV, o rádio, publicações,
mensagens, cartas enviadas pelo correio, sítios na internet e
inclusive interferem e interagem na atividade da imprensa e da produção
cultural dirigida para estes que seriam seus cidadãos.
O conteúdo desta comunicação e políticas
de comunicação raramente se remetem de forma objetiva a prestação
de contas do uso do dinheiro arrecadado dos contribuintes. A
resposta clara e direta sobre o quanto se arrecadou de impostos,
onde se arrecadaram estes impostos, de que forma foram gastos os
recursos ou onde foi gasto o dinheiro do contribuinte não é
prioridade nas políticas e práticas de comunicação da maioria
dos governos organizados do mundo.
Propaganda política, visibilidade para a
imagem dos políticos, espaço na mídia para o político se
manifestar em relação aos seus projetos, promoção de produções
culturais que ecoam os discursos políticos destes estados e dos
grupos a frente de sua administração e outras formas de repercutir
discursos ideológicos de interesse do Estado são práticas bem
mais usuais.
Não é pouco comum governos democráticos
que gastam o dinheiro do contribuinte em campanhas publicitárias de
seus muitos ministérios, secretarias, departamentos e seções. No
caso do Brasil, existem campanhas publicitárias tratando dos avanços
econômicos e infra-estruturais que teriam surgido a partir da
implementação de políticas de desenvolvimento; em nenhuma delas há
qualquer validação dos dados apresentados por auditorias, órgãos
de regulamentação e observância internacionais ou outros tipos de
processo de validação independente e isenta que poderiam existir
para as informações apresentadas e mais raramente ainda são
abordados valores monetários e os percentuais que estes valores
representam do total arrecadado, ou do total destinado dos recursos
públicos.
Em
alguns Estados mais avançados se gasta muito dinheiro do
contribuinte em campanhas do tipo “de utilidade pública”, como
campanhas contra o consumo de álcool por motoristas, contra o hábito
de fumar, pelo uso dos preservativos. Mesmo nestes Estados é raro
que se divulguem os números sobre os impostos, sobre o custo da própria
campanha que o contribuinte está vendo, ou sobre as reservas que os
Estados dispõe e gastam às vezes até além de sua capacidade de
endividamento.
As democracias em sociedades de massa são
muito eficientes na validação eleitoral de suas democracias, mas não
se preocupam na mesma medida com a transparência e referendamento
do uso do dinheiro arrecadado de seus cidadãos. Raramente é
central na forma como a discussão política e econômica nacional
é pautada e estruturada pela imprensa a obrigatoriedade de transparência
do uso do dinheiro dos contribuintes.
Um dos casos mais famosos de referendamento
é o do Estado do Colarado nos EUA, onde uma emenda ao artigo 10 da
constituição deste Estado obriga a um referendum popular
para sancionar aumentos de impostos que signifiquem incremento real
de receita para o Estado em percentuais superiores as taxas de
crescimento populacional e da inflação medidas ou por um índice
do custo de vida ou pelo índice de aumento dos valores das
propriedades em âmbito regional. Este processo é chamado de
“de-Brucing” em homenagem a Douglas Bruce, autor da emenda.
Se olharmos comparativamente as práticas do
setor privado as empresas privadas são obrigadas por lei a
publicarem seus balanços em jornais de grande circulação, e a
terem transparência e governança corporativa para obterem mais
investidores. O mesmo não acontece com os gastos públicos de
muitos países onde estas empresas operam e pagam impostos. Mesmo
nos governos que “disponibilizam” estas informações para os técnicos
na área isto é muito diferente de adotar práticas ativas e
massivas para informar o cidadão contribuinte.
Na maioria das democracias toneladas de papel
são impressos durante as campanhas políticas para eleger um
candidato, mas muito pouco é impresso pelos governos para distribuição
pública quanto se trata de informar aos cidadãos que pagam
impostos sobre os detalhes e os números a respeito de como o
dinheiro destes impostos é gasto. Até a cobertura de um campeonato
de Fórmula 1 tem mais números divulgados na imprensa do que os vários
órgãos que ganharam impostos pelas atividades da Fórmula 1 em
seus países. Você já assitiu a uma cobertura jornalística de Fórmula
1 informar quanto em impostos a corrida de Fórmula 1 gerou para o
país e como será usado este dinheiro? Claro que não, esta informação
não faz parte do espetáculo!
A
Informatização dos Dados Econômicos e a Tirania Fiscal Contemporânea
Cada vez que um cartão de débito ou crédito
de um banco é passado em uma máquina de cartão de crédito
ligada ao banco pela internet, e é emitida uma nota fiscal eletrônica,
que em alguns países até informa o quanto de imposto foi cobrado
na operação, esta informação fica registrada em tempo real nos
bancos de dados digitais que muito eficientemente podem ser
utilizados na cobrança de impostos.
Esta disponibilidade a dados sobre as quais o
cidadão individual tem pouco ou nenhum controle facilita a que os
Estados se cerquem de argumentos e informações que colaboram para
a cobrança de impostos. Obrigados a pagar impostos sob pena de prisão,
ou outros tipos de sanção política como o impedimento de
transitar com seus pedidos em departamentos públicos e até mesmo
em bancos privados, os contribuintes ficam cada vez mais expostos e
fragilizados sem que possam se defender mesmo da invasão abusiva ao
sigilo de informações privadas sobre sua atividade econômica.
O
intercruzamento de bancos de dados sem a anuência do contribuinte
sob a alegação de que não se pode acobertar sonegadores de
impostos acaba por configurar um contexto de fragilidade para
enormes massas populacionais que sem poderem contestar as ações
dos fiscos e órgãos arrecadadores têm que ceder parte de seu
patrimônio. Em face deste acesso a dados econômicos os fiscos
querem cada vez mais encurtar os caminhos para tomar do contribuinte
largas parcelas de seus patrimônios que estes Estados entendem como
devidos e manifestam sua vontade sempre através de leis erga
omni.
Em contrapartida, toda esta tecnologia da
informação que facilita o controle e medição dos dados econômicos
não é organizada com a mesma eficiência quando se trata de
mostrar para o contribuinte o destino dado ao dinheiro arrecadado.
Os arrecadadores entrincheirados atrás de alegações de segurança
nacional, soberania e interesse de Estado, ou simplesmente amparados
pelas leis elaborados pelos mesmos que auferem seus ganhos do
dinheiro dos contribuintes, de fato negam aos contribuintes o
direito a visibilidade do processo de arrecadação, e, ao mesmo
tempo, os obrigam a entregar parte de seu patrimônio aos fiscos e
sistemas arrecadação de impostos.
Em sociedades onde o retorno em serviços a
população financiados com dinheiro público é tão ostensiva
quanto a cobrança de impostos existe um maior equilíbrio econômico
e social e a face tirânica destes processos não se mostra tão
claramente. Mas, nos casos em que isso não acontece, é flagrante a
tirania que se abate sobre as populações que acabam encontrando
como único refúgio a economia informal ou até as atividades
ilegais como o contrabando, o tráfico de drogas e a prostituição
que agudizam ainda mais a vulnerabilidade social destas populações.
O Brasil, que sufoca sua população com
pesadas e ostensivas cargas tributárias, hoje é um dos campeões
mundiais de informalidade da economia,
mais de 40% da população economicamente ativa está na
informalidade econômica. Esta cultura da informalidade, da
atividade ilegal como única saída para a miséria, acaba gerando
Estados paralelos como os que vemos surgir nos morros cariocas e em
muitas periferias de todas as cidades grandes do Brasil. O Estado
super arrecadador não se responsabiliza por esta questão e de
forma alguma admite que se crie alguma relação explicativa entre o
abuso fiscal sobre os patrimônios e geração de riqueza privados
com os fatores de geração da marginalidade social. Pelo contrário,
os crescentes recordes de arrecadação são anunciados no Brasil
como conquista social que estaria a viabilizar inclusão destas famílias
em programas de renda mínima do governo como a bolsa escola, o fome
zero a bolsa família e outros programas de renda mínima.
O que na verdade se está a fazer são
programas que irão garantir que as famílias nunca saiam da condição
de renda mínima, mantendo-se assim o status quo e a
estrutura que pereniza no topo do poder e dos privilégios econômicos
o grupo que defende e organiza estas práticas de tirania.
Este processo demagógico acaba por manter no
poder por décadas os grupos políticos que promovem esta “inclusão
social” sem que se informe a estas populações que bem mais da
metade do dinheiro que lhes é concedido sob a forma de bolsas acaba
retornando aos cofres públicos quando estas famílias usam estes
parcos recursos para consumir alimentos ou outros bens de consumo,
realimentando assim o montante dos recursos arrecadados.
Este esquema é uma forma sutil de escravização
econômica que de maneira alguma pode ser anunciada como conquista
social, a única conquista é a permanência no poder destes grupos
que acabam se locupletando e enriquecendo seus pares e
aqueles que os ajudam a continuar no controle da máquina pública.
Ao melhor estilo dos impérios da antiguidade erguem-se faraônicos
monumentos para celebrar a pujança poder público ao passo que a
maior parte da população vive em condições precárias de
saneamento, alimentação, acesso a educação e serviços de saúde.
Trata-se de um quadro novo de tirania
imperialista cruel e sem escrúpulos, revestida agora de recursos
tecnológicos, justificada pelas atividades eleitorais massivas de
duvidosa qualidade em relação a real participação nos processos
decisórios sobre o uso dos multibilionários recursos arrecadados.
Este tipo de neo-tirania não se explica
pelos modelos clássicos do capitalismo liberal ou do socialismo
real, é um fenômeno novo, que foi prenunciado no meio do século
20 nas práticas do Estado Nazista, que agora se mimetiza em um novo
tipo de estado tecnológico, tecnocrático e extremamente agressivo
que tem como único objetivo a manutenção do seu próprio poder de
Estado e acumulo de riqueza onde as burocracias fiscais e as outras
burocracias tendem a resolver somente os seus problemas e se pautam
por sua agenda interna, e não pelas necessidades da sociedade ou do
contribuinte.
O
Brasil no contexto da Neo-Tirania Fiscal
No Brasil, país de imensos recursos naturais
e possibilidades econômicas, não é incomum testemunhar-se histórias
de pessoas que morrem em filas de hospitais por falta de
atendimento, de alunos que dispões de precárias condições em
suas escolas, de pequenos empresários sufocados pela carga dos
impostos obrigados a fecharem suas portas, de estradas perigosas
responsáveis por milhares de acidentes fatais e da falta de
investimento do Estado que deveria usar o dinheiro dos contribuintes
para resolver situações causadas pela ausência da infra-estrutura
pela qual todos os cidadão já pagaram sem que lhes seja dado
retorno pelo pagamento.
Neste mesmo Brasil o dinheiro dos
contribuintes financia a construção das maiores empresas do mundo
em setores estratégicos da economia, a JBS-Friboi, que de um
pequeno frigorífico de Anápolis se transformou no maior frigorífico
do mundo, com dinheiro público e ajudado por fundos de pensão
controlados pelo governo; ou do Caso da OI-BrasilTelecom,
que dependeu não só dos recursos públicos para ser a maior
empresa de telefonia das América Latina, mas da assinatura do
Presidente da República em uma Medida Provisória que mudou o PLANO
GERAL DE OUTORGAS, rompendo um acordo com o mercado pela não monopolização por um
única empresa do serviço de telefonia quando este setor foi
privatizado. Estes são exemplos das preocupações do Estado
Brasileiro, que estão muito longe de ser a solução para os
problemas infra-estruturais gigantescos de um país continental.
A falta de transparência no uso do dinheiro
público permite que os governos não transparentes pratiquem todo o
tipo de abuso ao melhor estilo medieval.
O primeiro destes abusos é esconder o que se arrecada. No
caso do governo Brasileiro, amparado por seus técnicos e pesquisas
encomendadas, anuncia de
maneira falaciosa o impacto da carga tributária sobre a economia
como sendo entre 40% e 35%. O cálculo é feito da forma mais casuística
o possível, se subtrai do PIB brasileiro o valor do total
arrecadado anualmente pelo governo, sem atualizações ou ajustes de
cálculo.
O que o governo não quer sequer explicar é
que este PIB tem a terça parte proveniente de divisas geradas pelas
exportações sobre as quais incide uma carga tributária bem menor
do que a incidente sobre as operações domésticas, portanto, este
total arrecadado não foi arrecadado de forma igual em todas as
transações econômicas, as mais tributadas são responsáveis por
parcelas maiores, e estas mais tributadas são justamente aquelas
ligadas a vida cotidiana dos cidadãos: alimentação, transporte,
remédios, serviços básicos como telefonia e energia.
A pergunta que deveria ser respondida muito
claramente pelo governo é: Quanto da renda de um trabalhador médio
acaba sendo levado para dentro dos cofres públicos? Qual a incidência
dos impostos sobre os alimentos, considerando-se os impostos
direitos e indiretos incidentes sobre todas as etapas da cadeia de
valor que levou os alimentos até a mesa de um trabalhador urbano?
Quando se compra um litro de leite e um quilo de pão quanto deste
valor corresponde ao custo dos impostos, que, evidentemente estão
sendo repassados para o consumidor final e simplesmente compõe mais
um dos custos operacionais das grandes, médias ou pequenas empresas
envolvidas neste processo?
As práticas tributárias brasileiras penalizam
e sobre tarifam justamente a população mais pobre, já que os
ricos acabam repassando percentuais menores da sua renda para os
impostos. Fica muito claro quando comparamos um Juiz de Direito
brasileiro, funcionário público bem instruído,
com um taxista, micro empresário quase sempre de baixa
instrução, qual deles tem percentuais maiores de sua renda
comprometida com impostos? O taxista que ganha 2 mil reais ou o juiz
que ganha 20 mil reais? Para se alimentar e a sua família o taxista
gasta mais da metade do que ganha, o juiz bem menos do que isso,
como os impostos sobre os alimentos são iguais para ambos, e os
percentuais de suas rendas destinados a alimentação muito
diferentes, o taxista paga muito mais impostos. E ainda paga mais
para exercer sua atividade profissional, já que todos os insumos são
tributados; o carro, os pneus, o combustível, a licença para
dirigir, a própria licença para ter o táxi; ao passo que o juiz não
paga imposto algum para sentar em sua cadeira de magistrado.
No Brasil existem 78 impostos, espalhados
pelas várias etapas das muitas cadeias de valor que levam bens de
consumo duráveis e não duráveis para dentro das casas das famílias
brasileiras que são, em ultima instância, daqueles de quem se
subtrai o valor. Estas famílias não conseguem “repassar” os
custos ou discutir os valores pagos, até por que a eles não são
informados sobre quais são estes valores, e quando o é informado a
informação é parcial. Isto retira dos contribuintes a
possibilidade de entender o quanto lhes é subtraído, sem saber o
quanto é retirado dos seus bolsos não exigem a contrapartida em
serviços.
O contexto brasileiro ainda tem mais uma
crueldade. Além de se subtrair do contribuinte largas faixas das
riquezas que produz sem lhe informar o quanto lhe é retirado ou em
que momento, este governo que deveria ser responsável pela
infra-estrutura (eletrificação, telefonia, estradas, hospitais,
universidades, aeroportos, etc.) usa o dinheiro do contribuinte para
construir estes sistemas de serviços e depois os privatiza,
passando para o setor privado a responsabilidade de mantê-los
mas sem diminuir a carga de impostos, ou seja continua cobrando do
contribuinte elevados impostos sendo que não tem mais os gastos para os quais
estes impostos se destinavam.
Por exemplo, os contribuintes pagam impostos
para garantir a oferta de infra-estrutura, como a energia elétrica
em suas residências, mas se esta energia faltar ele deve reclamar
junto a uma empresa privada que administra o serviço e a tarifa de
fornecimento de energia, no passado uma tarifa pública, agora
privatizada e objeto de cobrança de impostos, justamente por se
tratar de uma atividade comercial privada e, portanto, tributável.
Outro exemplo brasileiro, os contribuintes
pagam impostos para se que tenham estradas, o governo abre as
estradas com o dinheiro público, não as mantém adequadamente e
depois as privatiza, sendo então cobrados dos contribuintes pesados
pedágios privados, sob a alegação de que só com pedágios
pode-se manter as estradas.
Como marca inquestionável de tirania os
contribuintes não têm acesso real a canais de participação para
contestar estas políticas ou para aumentar sua participação nos
processos decisórios, sendo sua única forma de participação
escolher em uma telinha de urna eletrônica entre grupos
partidarizados que, uma vez no poder, não fazem a mínima questão
de mudar esta situação de falta de transparência no uso do
dinheiro público (lembrem, o salário destes representantes eleitos
vem do dinheiro dos contribuintes, portanto a lógica é de que
diminuir os impostos significaria diminuir suas próprias
possibilidades de remuneração).
No contexto de baixo nível educacional do
Brasil o que acaba acontecendo é que estas populações a margem da
participação política, exploradas economicamente pelo governo e
na informalidade claramente identificam a atividade política como
aquela que lhes mantém nesta condição de miséria e rejeitam a idéia
de se organizar politicamente para enfrentar, a partir da própria
estrutura “democrática” do Estado, aqueles que os exploram.
Cria-se uma cultura de rejeição da atividade política, de que ser
político é ser “sujo” e assim só os representantes dos grupos
que querem a manutenção destas práticas de tirania buscam a
atividade política,
perpetuando assim estes grupos no poder.
No contexto da
tirania fiscal o único serviço que de forma alguma o governo quer
repassar para mãos privadas é justamente a atividade de arrecadar
impostos. As partes comercialmente mais interessantes do que foi
construído no Brasil em décadas de investimento pago pelo
contribuinte foi vendido para empresas e grupos privados, e cuja
compra, muitas vezes, foi financiada com o próprio dinheiro dos
contribuintes através de bancos públicos; mas, jamais se ventilou
a possibilidade de “privatizar” a Receita Federal, esta com
certeza vai por muitas décadas, e talvez séculos, ser
completamente resguardada atrás dos muros do Estado.
Neste
sentido existe uma aproximação dos direitos do consumidor e dos
direitos do contribuinte, o contribuinte paga impostos e tem direito
a serviços, mas não se oferecem estruturas para que este
contribuinte fiscalize o uso do dinheiro que lhe é retirado, nem
existem práticas eficientes de transparência. E não se pode
esperar dos tecnocratas (juristas, economistas, planejadores,
administradores, contadores) a serviço do governo que questionem
esta situação já que os seus salários, muito acima das médias
salariais da população e dos profissionais desempenhando
atividades semelhantes no setor privado, questionem este processo de
tirania.
Direitos
Mínimos do Contribuinte nas Sociedades de Comunicação de Massas
– A iniciativa do Estado na Transparência
As práticas de transparência quanto ao uso
do dinheiro público também são cooptadas para que façam parte do
discurso de justificação da tirania fiscal.
Se disponibiliza na internet parte destas informações que
podem então serem “buscadas”pelo contribuinte que se interessar
em saber quais são elas.
Estas práticas de transparência deveriam
ter no Estado a parte que ativamente leva a informação até o
contribuinte onde quer que este esteja, e sempre lhe informar no ato
em que tem recursos amealhados pelos sistemas de arrecadação de
impostos o quanto e como lhe foi retirado, e, principalmente,
informar de que maneira os representantes eleitos usam os recursos públicos
e dão destino as reservas de dinheiro retiradas da população.
Não existe qualquer objetividade na
implementação da transparência pela maioria dos Estados no mundo
inteiro. E, tampouco, os telejornais privados e públicos se ocupam
em divulgar o quanto é retirado dos cidadãos a cada dia, mas esta
retirada de recursos da sociedade em prol do governo acontece a cada
segundo, todos os dias
em todas as economias com estruturas monetárias, bancárias e
financeiras reconhecidas. No caso brasileiro o Jornal Nacional todos
os dias divulga a cotação do dólar, mas raramente fala do
montante arrecadado pelo governo federal.
Entregar para os contribuintes estes números
sobre a arrecadação e o uso do dinheiro público deveria ser tão
natural quanto entregar a lista telefônica ou enviar a conta de
energia elétrica. A consulta e a observância das informações
sobre o uso do dinheiro público certamente poderia estar no centro
da discussão política de qualquer país. Mas normalmente o
“espetáculo” político
apresentado para as pessoas na TV, Rádio, Jornais e Internet está
longe de debater com objetividade de quem foi arrecadado o quanto
foi arrecadado, como foi arrecadado, para onde está sendo
destinado, quando foi destinado e por que está sendo destinado esta
recurso para tal fim. O espetáculo político está mais centrado
nos episódios palacianos de disputa de poder e nas gafes públicas
dos políticos do que no impacto da atividade destes políticos para
o bolso de cada leitor, ouvinte ou telespectador.
Se esta é a atitude mais generalizada da
imprensa (constituída de empresas privadas) então deveria caber ao
Estado a iniciativa de promover este debate, de pautar a agenda da
imprensa e buscar objetividade neste debate sobre o uso do dinheiro
do contribuinte. As eleições seriam os momentos mais naturais para
este debate se acalorar, mas o Estado, representado pelos tribunais
eleitorais que organizam as eleições ou dos tribunais de contas
que fiscalizam as contas públicas, não toma iniciativa alguma de
informar em caráter oficial os números sobre o uso do dinheiro público
de forma objetiva, compreensiva e para toda a população. Os
debates sobre o uso do dinheiro público durante as eleições são
consumidos na troca de acusações de mau uso do dinheiro público
que podem ser tanto falsas como verdadeiras e, via de regra, quase
todas sem fundamento.
Mas o Estado se exime por interesses estratégicos,
permite a imprensa “livre” que promova o espetacularização do
debate político e do debate sobre o uso do dinheiro público,
disponibiliza somente partes da informação sobre o dinheiro público
em sítios na web que só podem ser entendidos por técnicos, cria
sistemas de impostos complexos e truncados que também necessitam de
técnicos para se entendê-los, super remunera seus arrecadadores e
corpos técnicos ligados a este processo de arrecadação
diretamente ou indiretamente, organiza, disponibiliza e usa toda a
informação sobre fatos tributáveis com o auxílio dos melhores
recursos da tecnologia da informação, se exime de durante as eleições
informar como os antecessores aqueles que disputam usaram o dinheiro
público, e, assim, abre o caminho para esta nova forma de tirania
estatal que é a tirania fiscal em estados pós-modernos de
democracia de massas.
O
Reconhecimento dos Direitos do Contribuinte no Acesso aos Direitos
Humanos
O surgimento da declaração Universal dos
Direitos do Homem não previu que as sociedades tivessem que
investir para que estes direitos viessem realmente a existir.
A existência de condições básicas de saúde pública,
educação, saneamento e trabalho depende de políticas que promovam
estas condições. Para isso os contribuintes pagam impostos, para
que sejam implementadas estas políticas. Ou seja, o cidadão só
terá acesso aos seus direitos humanos mais básicos se os recursos
que lhe são tirados para tanto realmente forem usados para isso, se
este processo for sujeito a desvios, fraudes e fomentar mais a
corrupção do que a eficácia dos direitos humanos então veremos
quadros como o do Brasil; um país com imensa riqueza, recursos
naturais quase infinitos, com algumas das maiores empresas do mundo
sediadas em seu território, entre os maiores produtores de alimento
do mundo, e, sem que a maioria de seus cidadãos tenha acesso real
aos Direitos Humanos; direito a um trabalho decente, direito a uma
escola decente, direito a um sistema de saúde decente, entre outras
condições básicas que não existem a não ser na letra morta da
constituição do país.
O
contexto do surgimento dos direitos humanos no século 18, como
parte do discurso das revoluções burguesas, era justamente o de
opor-se a tirania dos monarcas sob vastas populações. Esta tirania
teve resposta justamente na declaração dos direitos humanos. Hoje,
quase 3 séculos depois, e bilhões de habitantes depois, em um
contexto de Estados bem estruturados , tecnologizados, amparados por
vastos quadros funcionais, assessorados pelos melhores profissionais
entre seus graduados, mesmo em países com eleições que
formalmente atendem aos requisitos básicos que as legitima, vemos
em diferentes graus a tiranização econômica destas vastíssimas
populações através de estruturas que controlam cada centavo que
entra e sai do bolso de cada cidadão.

No
dia 10 de Dezembro de 1948 em Paris, na Assembléia Geral das Nações
Unidas, é promulgada a Declaração Universal dos Direitos do
Homem, um texto de 30 artigos que estabelece a igualdade entre todos
os homens. Ela representa a culminância de um processo ético que,
iniciado com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, da
Revolução Francesa.
Neste contexto, o reconhecimento dos Direitos
do Contribuinte é uma das formas para garantir que estes Mega
Estados Tecnológicos realmente zelem pelos direitos humanos e permitam que as pessoas
tenham acesso as riquezas que produzem, que estas pessoas tenham
acesso aos benefícios da ciência, aos avanços da saúde pública,
a dignidade que lhes é negada.
A
regulamentação e padronização dos Direitos do Contribuinte dos
Sistemas de Arrecadação de Impostos, Contribuições e Taxas Públicas
A prática de cobrança de impostos por
Estados constituídos é tão antiga quanto à própria existência
destes Estados. Não existe Estado que não cobre impostos, taxas ou
contribuições para existir. É natural que o Estado cobre
impostos. E desejável que a sociedade contribua com recursos em
muitos contextos dos vários Estados no mundo. O que não poderia
acontecer é perverter-se o sentido desta máquina que existe para
servir ao contribuinte e não o contrário. A selvageria fiscal
completa, atropelando garantias estabelecidas na Declaração
Universal dos Direitos do Homem, tem que ser coibida e observada.
Deveria haver órgãos de observância e regulamentação
internacionais que recomendassem práticas e validassem
procedimentos fiscais.
A própria ONU tem entre suas divisões a
Organização Mundial do Comércio (que trata de questões tarifárias
internacionais), da Organização Mundial do Trabalho (que defende a
busca de trabalho decente para todos e coíbe práticas de escravização
truculenta), a Organização Mundial da Saúde (que coíbe práticas
mercenárias da medicina bem como cria parâmetros de saúde pública
e pessoal), mas não existe a ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DOS
CONTRIBUINTES.
Uma entidade reguladora poderia determinar em
que casos está havendo abuso por parte dos Estados, promover o
debate qualificado em âmbito mundial sobre as várias situações
de invasão dos direitos do contribuinte ou de não cumprimento de
garantias mínimas de bom uso do dinheiro dos contribuintes, que
determinasse padrões e práticas de transparência na discussão
doméstica do uso do dinheiro dos contribuintes, que garantisse e
observasse que os estados tenham sistemas tributários compatíveis
com a realidade de sua região, populações, PIB entre outras variáveis,
que pudesse julgar em âmbito extra-nacional em tribunais
internacionais os estadistas que tivessem desviado o dinheiro público
ou utilizado este para o enriquecimento pessoal ou de grupos ligados
a ele, que obrigasse aos Estados a garantir que o contribuinte fosse
informado do que é retirado de sua renda e de seu patrimônio no
momento em que isto acontece, que houvessem sistemas de prestação
de contas dos governos de entendimento simples e que a observância
destes sistemas fosse ensinada desde os primeiros anos de educação
em todas as escolas.
Uma entidade internacional com este caráter
não iria invadir a soberania e autodeterminação dos povos, mas
iria fomentar práticas de bom uso do dinheiro público e de
fiscalização por parte dos contribuintes do uso deste dinheiro.
Declaração
Universal dos Direitos e Deveres do Contribuinte pelo autor
1) Todos os contribuintes têm o direito de pagar impostos na medida das possibilidades de seus ganhos sem que estes impostos lhe retirem a possibilidade de melhorar sua condição de vida.
2) Todos os contribuintes têm o direito de saber qual o valor total de impostos que lhe é retirado no momento em que é retirado.
3) Todos os contribuintes têm o direito de contestar a cobrança de impostos em tribunais isentos e independentes que façam parte do poder judiciário de seus países e que não estejam ligados aos órgãos arrecadadores.
4) Todos os contribuintes têm o direito a serem informados de maneira clara e objetiva sobre como o dinheiro arrecadado é gasto pelos seus governos através de publicações gratuitas ou programas de rádio e televisão.
5) Nenhum contribuinte pode ser considerado sonegador antes que isto seja uma decisão de um tribunal independente, isento e que não faça parte dos órgãos arrecadadores.
6) O contribuinte não pode ser exposto ao ridículo público por suas dívidas com o fisco nem a cobrança de impostos pode fazer uso espalhafatoso da força policial na execução de penas de origem fiscal.
7) Aos contribuintes que devem impostos deve ser oferecida a possibilidade de parcelar estas dívidas de acordo com as práticas de parcelamento vigentes na sua região e a estas dívidas não podem ser acrescentadas multas ou juros de caráter confiscatório.
8) As alíquotas dos impostos devem ser referendadas pelos contribuintes em sufrágio universal.
9) Dívidas com o fisco não podem retroagir a fatos acontecidos há mais de cinco anos.
10) O contribuinte que deve impostos não pode ser execrado em listas de devedores e nem a ele podem ser aplicadas sanções, restrições ou impedimentos da prática de sua profissão ou da atividade que garante sua renda.
11) O debate sobre o uso do dinheiro público deve ser aberto, registrado pelos veículos de comunicação públicos e privados, explicativo e os órgãos que auditam as contas públicas devem emitir pareceres compreensíveis sobre o destino dado ao dinheiro arrecadado dos contribuintes
principalmente durante os períodos de debate que antecedem as eleições.
12) A imprensa, os veículos de comunicação e os jornalistas têm o dever ético de acompanhar as contas públicas e devem auxiliar no debate
objetivo sobre o destino dado ao dinheiro arrecadado dos contribuintes.
13) Os direitos do contribuinte são inalienáveis e equiparados aos direitos humanos.
Autor:
Luciano
Medina Martins – Jornalista e ativista dos Direitos do
Contribuinte www.direitosdocontriubinte.com.br
Novembro/2008
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