Por Karen Viscardi
As alíquotas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços
(ICMS) cobradas pelo governo gaúcho e a concorrência de empresas
informais ou que sonegam tributos tiram a competitividade da indústria
local de alimentos. O alerta é de empresários ligados ao setor no
Estado, que alertam que muitos produtos taxados no Rio Grande do Sul
chegam a ter tarifa zero em outras áreas do País.
O presidente do Sindicato das Indústrias da Alimentação do Estado do
Rio Grande do Sul (SAI), Walter Beiser, destaca que vários segmentos da
indústria locais têm dificuldade competitiva em relação a outros
estados. “O Rio Grande do Sul tributa muito direta e indiretamente”,
observa. Ele explica que, no Estado, o nível de exigências também é
maior.
Beiser cita Santa Catarina como um dos maiores concorrentes na alimentação,
onde muitas companhias operariam sem nota fiscal ou com notas que não
condizem com as especificações de peso e quantidade dos produtos. “Há
casos em que os produtos de empresas ilegais são desqualificados
tecnicamente para consumo humano”, revela, cobrando um maior controle
dos órgãos de fiscalização competentes. O empresário afirma ainda
que é necessária uma ação conjunta entre os governos gaúcho e
catarinense para que haja mais controle sobre as fábricas.
Além da sonegação, alguns produtores enfrentam a concorrência direta
de empresas de regiões com alíquota zerada, como é o caso da cadeia
da panificação do Rio de Janeiro. Em São Paulo, a farinha de trigo
teve redução do imposto em 2004. A situação tende a ficar mais difícil
caso os paulistas aprovem projeto de lei para zerar o imposto sobre toda
a cadeia da panificação. A nova lista inclui trigo em grão, pão
francês, bolachas não recheadas e macarrão, que atualmente têm alíquota
de 7%. O pacote, apelidado pelo governo de Outono Tributário, atinge
ainda outros setores produtivos.
Como as empresas gaúchas pagam 7% de ICMS, a indústria da panificação
é prejudicada com a invasão de produtos de outros estados no mercado
local e com a falta de competitividade para vender em outras regiões do
País.
O presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação e
Confeitarias e de Massas Alimentícias e Biscoitos no Rio Grande do Sul
(Sindipan-RS), Arildo Bennech Oliveira, destaca que, se for considerada
toda a cadeia produtiva, o ICMS fica entre 14% e 15% para o produto
final, mesmo que as companhias creditem o imposto pago anteriormente. Se
o PIS e Cofins também forem considerados, a carga na cadeia chega a
quase 40%.
“Se continuarmos sem competitividade, não teremos como vender pão
congelado ou biscoitos para outros estados”, alerta Oliveira. Ele
ressalta que o Rio Grande do Sul está exportando empregos e riquezas.
“Já tentamos colocar a situação para o governo, mas como o Estado
está quebrado não há nem agenda para discutir sobre esse assunto”,
afirma.
Oliveira destaca que a indústria de panificação local não tem
competitividade comparando-se a empresas de outras regiões, como a
Sudeste, por exemplo, considerando-se tributação, tecnologia,
desenvolvimento e emprego.
Metade do frango consumido vem de outros estados
Também no setor de aves a situação local é de desvantagem. Segundo o
presidente da Associação Gaúcha da Avicultura (Asgav), Aristides
Vogt, o Rio Grande do Sul é um dos estados de maior tributação na área.
Por causa disso, mais da metade da oferta de frango nos supermercados gaúchos
vem de outros estados.
Em produtos básicos da cadeia, a alíquota é de 7% nas vendas internas
e entre 5% e 7% para outros estados, dependendo da região. Para os
itens elaborados, o imposto chega a 12%. Vogt diz que os estados do
Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Distrito Federal e Goiás impõem uma
alíquota de ICMS de 0% ou 0,1% nas vendas internas. Mesmo que esta isenção
seja para a comercialização interna, mesmo quando são enviadas a
outros estados chegam com vantagem competitiva, alerta o presidente da
Asgav.
O problema, diz Vogt, é que, quando o produto vem do Paraná para o Rio
Grande do Sul, por exemplo, a indústria paga 5% de ICMS, mas os
supermercados se creditam de 12%. “A Asgav já denunciou a situação
para a Secretaria da Fazenda, mas os supermercados ganharam a vantagem
na Justiça”, diz. Isso faz com que 60% da oferta de frango no
auto-serviço sejam provenientes de outros estados, principalmente do
Paraná. Em 2004, a indústria avícola gaúcha produziu 984 mil
toneladas, sendo 642 mil toneladas exportadas. Para ampliar a participação
do produto nas prateleiras, a Asgav defende que a diferença de alíquota
seja paga no posto de fronteira. (KV)
Mudança pode recuperar as vendas
O decreto estadual nº 43909, publicado no Diário Oficial do Estado no
dia 14 de julho, trazem um novo fôlego para as vendas dos moinhos gaúchos.
Isso por que o decreto instituiu o crédito presumido nas vendas para São
Paulo de farinha de trigo no mesmo percentual aplicado na saída do
produto de solo gaúcho, ou seja, de 12%.
“Na prática, significa zeramento da tributação. A medida é uma
resposta a São Paulo que zerou as operações internas”, explica o
diretor-adjunto da receita estadual, Júlio César Grazziotin. Ele
destaca que, se o projeto de lei proposto pelo governo paulista de zerar
a tributação em toda a cadeia do trigo for aprovada, o Rio Grande do
Sul, assim como outros estados, devem entrar com uma ação judicial de
inconstitucionalidade. “Para adotar essa medida, São Paulo precisa da
aprovação junto ao Conselho Nacional de Política Fazendária o que já
foi negado.”
O decreto tem validade de 90 dias, a contar de 1 de julho. Segundo o
diretor-adjunto da receita estadual, Júlio César Grazziotin, é
esperada uma equalização da tributação da farinha de trigo em nível
interestadual e nas vendas internas com um índice de 7% promovida pelo
governo federal.
No encerramento do Fórum Nacional do Trigo, em Erechim, o secretário
da Agricultura, Odacir Klein, destacou a medida. Segundo ele, o Estado
discute a desoneração do imposto para a saída do trigo em grão.
Assim, os produtores teriam condições de reter o produto e
comercializar em um momento oportuno.
Para o consultor do Sindicato da Indústria do Trigo do Rio Grande do
Sul (Sinditrigo/RS), Reinaldo Coser, a mudança recupera a
competitividade da produção local. “Os moinhos gaúchos retornarão
a vender para São Paulo nos mesmos volumes de antes.” (KV)
Fonte: Jornal do Comércio